domingo, 25 de março de 2012

A pena, o papel e a Bossa Nova


Às vezes sinto-me sufocada com minhas próprias palavras e reflexões. Não consigo recitar alguns dos meus pensamentos, e nem sequer pensá-los organizadamente.  Preciso escrever. A escrita para mim é aquela relação íntima entre eu, a caneta e o papel. É bem diferente da relação um tanto fria que existe entre os dedos e o teclado. Digitar é mais automático. Escrever exige intensidade e emoção. É uma forma de nostalgia.

Tenho ideias extremamente nostálgicas. Gosto de hábitos considerados antigos e pretendo realizá-los no futuro. Contraditório? Depende do ponto de vista.

Já vejo minha futura casa com uma sala repleta de livros. Meu paraíso secreto. Eu chego do trabalho, atiro a bolsa no sofá da sala, tiro os sapatos, desfaço o penteado e me atiro (com cansaço e alegria) na poltrona da minha mini biblioteca. Em seguida levanto ( porque não consigo ficar muito tempo parada), vou até a minha coleção de LPs e escolho o meu preferido: Elis e Tom. Coloco na vitrola.
Na sequência sirvo uma taça de vinho da safra de 1910 (ok, se continuar não gostando de vinho será suco de uva mesmo). Tomo um gole e observo a marca na taça deixada pelos vestígios de batom que ainda possuía nos lábios.

Finalmente vou até a escrivaninha, sento na cadeira e pego minha caneta-pena. Olho para o papel de tom amarelado e começo, mais uma vez, a me revelar tal como sou. Eu, a caneta, o papel e a sinfonia da bossa nova. Escrever é  e sempre será a minha única e mais eficaz terapia.


Obs: Por mais que esse texto venha a ser digitado, o primeiro passo foi transcrevê-lo para o papel.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Elis Regina - A estrela eterna

Elis. A voz que cantou e encantou o Brasil e o mundo. A voz que falou por todos, que cantou com a força e a graça que todos queriam e precisavam ter em tempos difíceis. Elis não foi uma simples cantora. Aliás, de simples ela não tinha nada. Ela foi a intérprete que, com toda a intensidade, personificou um Brasil de efervescência cultural, do surgimento da Bossa Nova, da boêmia carioca e da luta contra a censura. Elis não participou de passeatas ou grandes protestos contra o regime militar, mas sua voz cantando “O Bêbado e a Equilibrista” ou ainda “Chegadas e Partidas” foi ouvida por milhões de brasileiros e representou a dor de milhares de cidadãos que perderam ou foram afastados de amigos e familiares.

Elis nasceu em 1945. Naquela época, ninguém imaginava que aquela menina tímida de 1,5 m de altura e levemente vesga iria se transformar na “pimentinha”, amada pelo Brasil, que daria um golpe no conservadorismo. E sua morte precoce foi um grande susto para fãs, amigos, familiares e admiradores. A música nacional perdeu seu mais precioso diamante. Ela estava longe de ser um falto brilhante.

 Mas Elis não conquistou apenas pela sua voz e interpretação praticamente impecáveis. Ela encantou pelo sorriso e simpatia, pelo olhar e sinceridade, pela intensidade, autenticidade, bondade e inúmeros outros adjetivos terminados em “ade”, que atualmente parece estarem em extinção. Não lembro ao certo quando comecei a me interessar por Elis, mas lembro que ela me surpreendeu e envolveu como nenhum cantor atual seria capaz. Ouvindo suas músicas, sinto como se ela ainda estivesse viva.

Com o tempo e a maturidade, o interesse por sua música e história só aumentou. Assisti entrevistas, programas especiais, li sua biografia - que não pode ter nome mais adequado: “Furação Elis” -, visitei seu memorial em Porto Alegre, procurei seus discos entre os LPs de minha mãe e recentemente comprei o disco Falso Brilhante em uma loja de colecionadores. Ouvi na vitrola da minha vó, que também é uma grande fã e me contou várias histórias de quando Elis estava viva. Foi então que finalmente entendi: Elis é insubstituível.

 Trinta anos após sua morte, ela ainda é lembrada, suas músicas são tocadas nas rádios e seus fãs não a esqueceram. Ninguém conseguiu superá-la. Mas por um lado é bom que ela não esteja aqui para assistir a essa decadência musical brasileira.  A maioria dos bons cantores é antiga; e os cantores jovens que se salvam não fazem o sucesso que mereceriam.

Elis está longe de ser um meteoro desses que, com a mesma velocidade que surgem, desaparecem. Elis é como uma estrela: brilhante, inatingível e (excepcionalmente) eterna.







quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Viagens e retornos

Malas prontas. Tudo conferido. Um estoque considerável de livros selecionados. Acho que não esqueci nada. É hora de partir. Novos ares, novas paisagens. Pessoas diferentes, sotaques dos mais diversos. Viajar é muito bom. Mas voltar pra casa também é maravilhoso.
Quando passamos algum tempo fora costumamos sentir falta de casa. E dos amigos. Quando estamos longe parece que a saudade se mostra constante. Mesmo que você não veja essas pessoas todos os dias, quando se está em casa você sabe que é só pegar o telefone, discar aquele número que você sabe de cor e marcar um café ou um jantar pra botar a conversa em dia. Fora da cidade isso não é possível.
Voltar pra casa é como encontrar um sofá depois de uma longa caminhada em um belo parque. O passeio foi maravilhoso mas, no momento, aquele recanto aconchegante era tudo o que você estava precisando.
As viagens costumam durar o tempo que é preciso. Assim como tudo na vida tem o seu momento e duração mais oportunos. Dura o tempo necessário para sermos felizes. E para ficar registrado na nossa lembrança como um momento especial e inesquecível.
É como diz a música: “Mesmo com tantos motivos pra deixar tudo como está, nem desistir nem tentar agora tanto faz, estamos indo de volta pra casa”.

domingo, 6 de novembro de 2011

O sorriso da infância


Arrecadar e registrar sorrisos. Esse foi o desafio lançado na minha última aula de Introdução à Fotografia. A idéia pegou a maioria de surpresa e fez surgir, na face dos jovens estudantes, alguns sorrisos. Eu também sorri. O meu pensamento estava dividido: por um lado, eu vibrava com a idéia e por outro, eu desconfiava: será que vai dar certo? Acreditando ou não na eficácia da atividade, precisávamos nos reunir em grupos e pôr a ‘mão na massa’. Ou melhor, colocar a máquina fotográfica no pescoço, a cabeça pra funcionar e permitir que os comunicadores que existem dentro de nós se expressassem com toda a potência. E é claro, teríamos que deixar a timidez dentro da sala de aula, quietinha, sem atrapalhar a nossa empreitada pelo campus da universidade. Munidos apenas de uma máquina, um cartaz para chamar a atenção e um sorriso no rosto para dar o bom exemplo lá partimos para cumprir nossa missão de convencer as pessoas a registrar o seu sorriso.
Mais do que belas fotos, essa atividade revelou fatos interessantes que me fizeram refletir. Captamos sorrisos de casais, homens (não muitos), mulheres (a maioria) e crianças. O que eu pude constatar com os retratos ( e os membros dom meu grupo também perceberam isso) foi: quem sorri com mais sinceridade e espontaneidade são as crianças. A alegria transparecia naqueles sorrisos infantis.
Conforme vamos crescendo, parece que somos tomados pelo receio. Temos medo de nos expor demasiadamente (até mesmo por um sorriso), medo de nos revelar verdadeiramente, medo do que os outros podem pensar. Não estou dizendo que os adultos são incapazes de expressar um sorriso sincero. É claro que não. Estou apenas querendo demonstrar que a maturidade, por vezes, no traz receios desnecessários. A incessante desconfiança.
Às vezes, é bom deixar que a criança interior se expresse. Revelar o eu interior que, de tão recluso, corre o risco de ser esquecido. Deixar as máscaras de lado, sem medo de ser feliz. Demonstrar o mais puro sorriso, que não está somente nos lábios, mas também, no olhar.

Para concluir, deixo uma reflexão do livro que eu estou lendo chamado ‘Miragem’:

 “Redescobrir a pureza da infância é o embasamento para a compreensão das grandes verdades”
Luciana Soares


domingo, 23 de outubro de 2011

O valor do inusitado

Desde os meus 11 anos, adotei o uso de uma agenda pessoal. No começo, ela era usada literalmente como diário, local onde eu escrevia desde os acontecimentos mais interessantes do meu dia a dia até os mais triviais, além de alguns segredos (que nem eram tão secretos assim). Mais tarde, passei a utilizá-la também para marcar os meus compromissos. Ela tinha dupla função: passado e futuro se encontravam nas páginas deste meu artefato tão íntimo. Hoje, ela é utilizada muito mais para marcar o que preciso fazer. Abandonei o hábito de escrever o que me acontece diariamente (até porque não sobra muito tempo para isso). Eventualmente, colo ingressos dos espetáculos que vou prestigiar (considero uma bonita recordação) e também penduro textos e desenhos com os quais me identifico e os quais expressam um pouco dos meus pensamentos ( mesmo que não sejam de minha autoria).
Mas enfim,essa introdução foi só para dar início ao assunto que eu quero abordar. Como já disse, hoje minha agenda cumpre a função mais primordial de objetos da sua espécie, ou seja, registrar compromissos e atividades que não posso esquecer de realizar. Normalmente, escrevo a caneta e se tem uma coisa que sempre me chateou foi registrar eventos na minha agenda e precisar rasurá-los pois acabaram sendo desmarcados por terceiros.
Porém, esses dias estava refletindo sobre isso e percebi que não havia motivo para considerar esse risco sobre as letras uma coisa ruim. Afinal, que graça teria a vida se tudo o que planejássemos acontecesse na hora e no momento previsto, exatamente como imaginamos. Na maioria das vezes, os acontecimentos mais divertidos são aqueles que não estavam em nossos planos. Ou então estavam, mas acontecerão completamente diferente do que pensávamos e muito melhor do que havíamos imaginado. A verdade é que os fatos inesperados são vividos com maior intensidade e autenticidade.
Confesso que ainda não gosto quando pessoas desmarcam encontros, especialmente em cima da hora. Mas, aprendi a me estressar menos com as rasuras na minha agenda. Afinal, como acontece nos textos, quando rasuramos palavras normalmente é porque erramos ou queremos substituí-la por uma mais adequada. Na vida, quando desmarcamos algo é porque não era para acontecer ou porque ele será substituído por um acontecimento ainda melhor. Mesmo aqueles que tem tudo milimetricamente planejado precisam admitir: o inusitado também tem seu valor.

sábado, 17 de setembro de 2011

A sinfonia da diversidade

No último domingo, fui assistir a um espetáculo musical diferente. Foi uma apresentação de rock sinfônico. A orquestra municipal de sopros de Caxias do Sul se uniu a banda de rock progressivo Apocalypse e ao coro municipal para produzir uma música indescritível. Realmente maravilhosa. Não imaginei que gêneros tão diversos poderiam produzir uma melodia tão harmoniosa e emocionante. Uma música que passa a sensibilidade e a emoção do clássico junto com a energia do rock.
Foi aí que percebi como é comum este pré-conceito que temos de pensar que o que é diferente não combina, fica estranho junto. Temos a impressão de que tudo precisa ser combinadinho e parecido. Como poderão coisas aparentemente opostas conviver em harmonia? Pois o rock sinfônico se tornou a minha metáfora para mostrar que isso não só é possível, como é real e concreto. Pois o que eu vi no palco não foram apenas gêneros diferentes que se respeitavam, mas também que admiravam um ao outro e que unidos conseguiram produzir um som ainda melhor do que aquele que produzem separados. Músicas que se completam para produzir uma música realmente completa, capaz de provocar emoções inexplicáveis e complexas.
O espetáculo de rock sinfônico foi aplaudido de pé. Eu os aplaudo de pé não só pelo trabalho fantástico, mas pelo belo exemplo transmitido por eles. O exemplo do respeito mútuo e da união capaz de proporcionar vôos muito mais altos. Em um dia marcado pelos 10 anos do atentado de 11 de setembro, um triste episódio que incentivou tanto ódio, incompreensão e desunião no mundo, foi muito bom prestigiar um espetáculo que demonstrou o contrário de tudo isso. Como disse o maestro Gilberto Salvagni “para mim, música é o contrário de violência”.
Portanto, saudemos a música, a paz e a diversidade.
Quem se interessou pode assistir um trecho do espetáculo em : http://www.youtube.com/watch?v=au0OTbOzTLI

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Às bailarinas...

Hoje, 1º de setembro é dia da bailarina. Eu, como amante do ballet clássico, não poderia deixar de falar sobre isso. Hoje é dia de homenagear pessoas muito especiais. Pessoas que são ao mesmo tempo fortes e sensíveis, doces e severas consigo mesmas. Que passam por cima de dores terríveis, pressão psicológica e muitos outros empecilhos em nome de um único motivo: o amor à dança. Um amor inexplicável a uma das artes mais belas do mundo. Muito mais do que um exercício físico, dançar é exercitar a alma.
Com a dança aprendi a superar meus medos, vencer minhas limitações. Aprendi a acreditar mais em mim mesma, pois o esforço e a dedicação são capazes de nos proporcionar a realização de feitos inimagináveis. Passei a entender perfeitamente aquele famoso ditado que diz: a união faz a força. A arte em si é apenas um dos aprendizados que a dança proporciona. Quando dançamos com amor, sentindo a música, incorporando o personagem, descobrimos a existência de uma emoção extremamente grandiosa (e maravilhosa). Sentimentos que só uma bailarina tem a oportunidade de sentir.
A mais antiga das danças, a clássica (aquela que sobrevive ao tempo), já despertou o interesse e a admiração de inúmeros personagens célebres. Entre eles está o pintor escultor Degas. Este personagem enigmático é um francês que fez diversos quadros belíssimos de bailarinas. Obras que conseguiam, simultaneamente, expressar a beleza e as dificuldades do ballet clássico. Em toda a sua vida ele fez apenas uma escultura intitulada "La petite danseuse de 14 ans" (A pequena bailarina de quatorze anos). Esta obra, com uma surpreendente riqueza de detalhes, deixou horrorizados os conservadores da época. Ela expressava a pessoa que existe atrás de toda a perfeição da bailarina.
Abaixo você pode conferir esta bela escultura, além de outras maravilhosas obras de Degas:



E como diria Nietzsche: "...E que seja perdido o único dia em que não se dançou."